Atender de graça ou não?

Às vezes as pessoas dizem alguma coisa como análise ser algo caro de se fazer, que é coisa de elite, coisa pra se fazer no fim da vida e etc.  Noutras vezes, falam que analistas nadam em dinheiro como uma consequência do valor cobrado.  Não vou entrar em detalhes sobre o que a resistência à análise pode fazer com um sujeito, pois só para resumir e dar uma pequena ideia do que se trata, daria outro artigo.  A questão é que há alguns pontos dos quais as pessoas acabam se esquecendo ou que ignoram parcial ou completamente.

 

Um primeiro ponto, é que um analista é feito de carne, osso e, tirando alguns que vivam em outros tipos de sociedade, eles estão num mundo capitalista.  Isso quer dizer que também precisam de dinheiro, mas, não apenas para pagar água, luz e outras coisas que todo mundo tem.  É preciso custear a própria prática profissional que é cara.

O odontologista (dentista) precisará se regularizar junto aos órgãos do governo, ter o seu consultório e comprar materiais para atender adequadamente.  Não vai comprar apenas massas, anestesias e gazes, dentre outras coisas para executar os procedimentos.  Ele precisará também de um investimento para garantir que seu instrumental seja limpo para ser usado com segurança novamente, algo que acontece com vários outros profissionais.

Com um psicanalista e com os psicólogos há a necessidade de dois gastos essenciais.  Um com análise e outro com supervisão.
Nesse ponto alguns vão rir e dizer que é porque são loucos mesmo.  Eu diria que isso pode realmente orientar a escolha profissional, mas a loucura de cada um não é apenas razão para análise, a coisa vai bem além disso.  Conhecer a si mesmo, retira o sujeito da prisão que é repetir sempre o mesmo erro.  Conhecer a si mesmo, é deixar de ser refém da própria história.  E é sabendo mais acerca de si, que o analista tem a possibilidade de que suas próprias questões não atravessem o atendimento.

O que seria uma questão do analista atravessar o atendimento?…

A grosso modo, seria um momento do trabalho terapêutico onde, por exemplo, ele deixa de ouvir o paciente ou reage mal ao que o paciente traz comprometendo o avanço deste.  Criando um exemplo hipotético e até um pouco exagerado, um analista deixa de comparecer ao atendimento de seu próprio paciente para não ter que ouvir dele novamente que ele (o paciente) tem faltado ao trabalho para não ter que prestar contas a outros funcionários;  nesse caso, o analista poderia inclusive, ficar inexplicavelmente doente ou passar a ter crises de ansiedade antes de reencontrar-se com esse analisando.

A resposta para solucionar o problema desse analista seria ele perceber que ele próprio oferece resistência a tocar num assunto que é dele próprio.  Por isso é importante que um analista também faça a sua análise:  para que ele não seja um obstáculo ao avanço do trabalho analítico.  E para quem não sabe, o próprio Freud já recomendava um retorno ao divã de cinco em cinco anos àqueles que queriam praticar psicanálise com responsabilidade.

Mas, agora que a questão referente à necessidade de análise foi levantada, passemos à supervisão, dentro do mesmo exemplo.  Vamos imaginar que esse analista nunca percebeu que suas faltas estavam ligadas às suas questões, acreditando que sua questão era puramente fisiológica e sequer cogitou levar isso para análise.  Junto ao seu supervisor, ele acaba percebendo que seu paciente traz sempre uma mesma demanda, mas que ele próprio está sem saber o que fazer com aquilo e tentando ignorar.  É a hora de considerar que há algo atravessando um momento analítico e levar a questão para ser trabalhada em análise para que o caso volte a caminhar.

Não apenas para perceber o papel que questões do analista podem atravessar um atendimento, a supervisão é importante também para a ampliação do olhar analítico sobre um determinado caso.  O supervisor é outro analista e conta com uma bagagem de experiências muito importante.  Ele está ali para ajudar o analista a pensar com mais clareza, olhar onde o trabalho está e para onde ele pode caminhar.

Tanto análise quanto supervisão aplicam-se aos psicólogos.  Não necessariamente uma análise no caso destes, mas uma terapia é importante para se perceber como sujeito, bem como serve de cautela, profilaxia, contra possíveis deslizes.  Tudo isso tem um custo, portanto, atender um paciente não sai de graça para quem está atrás do divã ouvindo.  Freud já dizia que um atendimento gratuito irá se acumular no final do mês, como uma licença médica, podendo gerar brechas no orçamento, comprometendo, inclusive, investimentos na aquisição de novos saberes.

Além disso tudo, a cobrança feita ao paciente tem razões técnicas para ser feita.  Se o meio de produção fosse mercantilista, uma sociedade de trocas, o investimento na análise poderia ser outro, como cobrar um frango ou frutas por sessão.  Cobrar o paciente no consultório é sustentar a importância do paciente comprometer-se com a própria mudança, por isso, cobrar tem que ser visto com muita cautela.

Uma resposta para “Atender de graça ou não?”

  1. Legal Luciano. Engraçado os profissionais da psicologia / psicanálise terem de justificar suas cobranças, levando-se em consideração que estudamos e precisamos sempre nos manter atualizados para realizar esta atividade com qualidade e segurança. Esse é o tipo de discussão que me cansa, me desculpe a sinceridade, mas ainda se faz válida e necessária.
    Obrigado pela texto!
    Marilice – marilicezanato.wordpress.com

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