“Fique calmo…”: O que dizer em horas críticas?

Em inúmeras situações em que as pessoas são postas à prova, escutam alguém lhes dizer para ficar calma, algo que no hospital chega a ser rotineiro.  Tentar manter a calma ajuda, sem dúvida, afinal, não é em meio ao pânico que as coisas vão se resolver no meio de equipe e pacientes.  Noutras palavras, calma é algo que ajuda tanto pacientes quanto equipe multidisciplinar (médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas, faxineiros e etc).

Algumas pessoas pensam que psicólogos, psicanalistas e demais profissionais da saúde mental possuem consigo uma leva de palavras mágicas ou cabedais de frases especiais para cada situação.  Somos profissionais que precisam ler muitas coisas e ouvir muitas histórias, o que sem dúvida, é enriquecedor.  Porém, não há qualquer palavra em especial que possa causar um efeito tranquilizador num sujeito, ainda que a linguagem tenha um papel crucial nas relações humanas e no psiquismo.

Ao pedir para alguém ficar calmo, você poderá se recordar de alguém que lhe disse isso, de alguém que você ouviu falar ou mesmo, de você falando.  Decerto lembrará de vezes onde isso deu certo e, pensando agora, de outras quando isso deu errado (como aquelas “patadas” de deixar sem rumo ou direção).

Pedir para alguém ficar calmo não é propriamente o que causa um efeito tranquilizador num sujeito.  A grosso modo, as palavras estão envoltas num contexto, num significado, compondo assim, uma parte de uma história.

Acreditar em palavras ou frases mágicas é uma parte de uma crença enraizada no senso comum, de que nossas mentes são algo tão superior que basta pensar forte, ser firme ou ter atitude para dar certo.  Se isso realmente funcionasse, outras frases de efeito, como “deixe de pensar bobagem”, “deixe de ficar triste” e outras, também teriam efeito e psicologia, psicanálise e psiquiatria talvez nem existissem.

Considere uma situação na qual você está no meio de um incêndio quando surge um bombeiro lhe pedindo para manter a calma.  Tente se imaginar em meio às chamas, fumaça e sem ter como respirar, desprovido de energia.

Ok.  Há aqueles que vão imaginar essa cena como algo tranquilizador, entretanto, outras vão querer saber logo para onde fica a saída, pedir para resgatar algum fulano, enfim, há muitas possibilidades.  O que pode tranquilizar um sujeito, se não é a palavra, é aquilo que está nas entrelinhas.

Assim, tente imaginar esse bombeiro lhe dando um abraço, lhe envolvendo numa manda anti-chamas.  Certamente essa cena será mais tranquilizadora que a fala dele, mas ainda assim, poderá não tranquilizar todo mundo.

O que acontece, afinal?

A chave é a atitude do sujeito que fala, a sua postura, o envolvimento dele com aquilo que ouve da angústia alheia.  Ou seja, é o bombeiro oferecer proteção ou uma enfermeira se dispor a estar ao lado de seu paciente para que este possa atravessar uma internação cheia de interrogações pela frente.  Há algumas coisas que não são ditas verbalmente mas, que com as palavras casam e potencializam efeitos.  Não há uma incoerência em tentar pedir para alguém ficar calmo, mas é importante dar algum espaço para o outro dizer o que acontece e se permitir envolver um pouco.

 

 

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