“Você só deve ouvir problemas, credo!”: outro mito sobre psicoterapia.

Há um monte de coisas que os psicólogos costumam ouvir, afinal, existe muita curiosidade reprimida que só aparece pelas colaterais ou pelas beiradas no convívio com as pessoas.  Surgem perguntas ou cutucões de todos os tipos… há quem se incomode com essas falas, mas… cada um lida com o que aparece de acordo com o que possui.

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Pessoalmente, prefiro levar a coisa de uma forma mais branda…

baba_vida_klearchos_3_prison_cellUma das coisas mais comuns que escuto é as pessoas falarem, com uma espécie de horror, que eu escuto problemas o dia inteiro.  Quando me dizem isso, fica parecendo que a cada paciente entro numa espécie de masmorra fria, triste e úmida da Idade Média, escutando murmúrios e grunhidos.

Ao chamar um paciente para o consultório, eu não tenho ideia do que ele pode me trazer.  Ainda que seja possível deduzir alguns dados sobre o desenvolvimento do caso, isso não é mais importante que estar aberto para ouvir o que surge em cada sessão.

Em regra, quando o paciente vem ao terapeuta (tanto no consultório quanto noutro ambiente, como no hospitalar, por exemplo) ele pode trazer qualquer coisa e não apenas os problemas de sua vida.  Muitas vezes ele fala de soluções que encontrou, questões sobre as quais ele refletiu, novas ou velhas frustrações, mudanças que percebeu ou que está percebendo, pontos que ele ligou em sua história, novidades que passaram a aparecer.

8467586-sketch-of-the-happy-man-house-and-sunÀs vezes, o paciente quer pura e simplesmente dizer ao seu psicoterapeuta que está contente…

Olhar com horror pro trabalho dos psicoterapeutas, as pessoas podem fazer por uma série de razões.  Podemos pensar desde resistência ao contato com os próprios problemas ou, partindo mais para o senso comum, por acreditarem que eles estão lá só pra isso e talvez pra tentar resolver os problemas alheios.

Quanto à resistência a questão é óbvia:  afastar de si aquele que pode colocar luz no meio do caminho e revelar quem o atravessa.

Em se tratando de resolver problemas alheios, dependendo do formato do trabalho terapêutico há essa possibilidade, a de oferecer soluções pro sujeito e acompanhá-lo nessa direção, tendo sua validade dentro de alguns contextos específicos, como os de aconselhamento.  Mas numa psicoterapia, isso vai variar, uma vez que o risco de oferecer soluções é o de ter um paciente dependente de seu terapeuta ou, ser excluído do tratamento por não ser um bom “solucionador” de problemas.

melhores-equipamentos-pesca-esportivaQuanto aos “problemas”, a via de trabalho que eu considero mais eficaz para trabalhá-los se traduz num velho ditado:  é melhor ensinar a pescar que dar o peixe.  E isso é muito mais eficaz, uma vez que se trata de trabalhar na estrutura da personalidade da pessoa.  Assim, o paciente passará a aprender sobre como resolver seus problemas para não cair novamente neles.

Um ponto que as pessoas muitas vezes não percebem que é tais problemas são do paciente e que continuarão sendo, ainda que apresentados ao psicoterapeuta. Naturalmente que há os pacientes que tentarão empurrar, negar, ignorar, ver no espelho… mas continuarão sendo problemas deles.

Não se trata daquela coisa fria e distante que muitas pessoas costumam imaginar como… “ah, é só não se envolver…”, é radicalmente diferente disso.  Envolver você está envolvido só em estar vivendo perto do sujeito de deixá-lo lhe falar do que está acontecendo, o que não acontece quando você deixa de ouvir.

Tal como aquele ditado do “cada macaco no seu galho”, o psicoterapeuta precisa estar bem situado quanto àquilo que escuta.  Se ele sabe bem de seu próprio lugar, certamente não irá se incomodar de forma alguma com a demanda que seu paciente lhe trouxer.  Seu papel é estar ali pra ajudar a perceber o que acontece e ajudar a pensar num trilhar para novas direções.72886021

 

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