Assédio, culpa, perdão e desculpas – Limites do corpo e da alma

Causa-me perplexidade, mas não surpresa, que em pleno século XXI algumas pessoas tentem virar o jogo e culpar a mulher ou justificar o homem diante de crimes sexuais.  Diante da denúncia pública de uma artista contra um artista famoso, colega de trabalho, li coisas que de forma recorrente aparecem e reaparecem. Elas vão desde falas que questionam inapropriadamente como “ah, mas outras não denunciaram porquê? Estavam gostando?”, “ah, mas como ela estava vestida?”, até outras ainda mais aberrantes como… “ah, mas o problema foi a minha criação machista”.

Menos!

Tanto corpo e alma (mente, inconsciente, diga como quiser dentro do seu devido contexto) têm os seus limites de acordo com cada sujeito. É aquilo que ele estabelece de formas diferentes de acordo com determinados contextos e com sua história de vida.  Ou seja, tocar na intimidade de uma pessoa demanda a construção de uma relação e uma disposição para tal, não apenas acerca do que diz respeito ao concreto, mas também, ao subjetivo.

Por exemplo, uma mulher pode desejar e pedir que a pessoa que é sua parceira sexual, lhe chamar de nomes chulos que a maioria dos senhores e senhoras sabem bem quais costumam ser. Pode inclusive se insinuar sexualmente, seja através de sua roupa ou gestos. Só que isso é algo íntimo, entre parceiros ou parceiras, fora dali a conversa é noutro tom. Ou seja, a liberdade foi cedida numa determinada situação e não tomada, permitindo a ambos gozar dela.

Num segundo exemplo mostro que mesmo num consultório é possível ser invasivo com um paciente, é só não respeitar o tempo dele de falar.

Neste caso, em atendimento domiciliar (lá no começo de minha atuação em tal contexto) eu tinha o costume de fazer vários questionamentos, investigar, perguntar acerca do que estava incomodando, tentando agregar o máximo de informações. Assim, não bastando estar entrando na casa das pessoas conforme a equipe multidisciplinar pedia, na medida que as portas de pacientes e seus cuidadores fechavam-se, dei-me conta de que estava indo além do que aquelas pessoas poderiam suportar, ou seja, estava sendo invasivo.

Tocar na intimidade não é apenas tocar ou entrar nas partes íntimas, é muito mais que isso. É também invadir o espaço subjetivo ao qual o físico sempre estará conectado e ao qual sempre estará fundido.  Trata-se de lidar com a história do sujeito e com as construções que ele possui quanto aos limites de corpo e alma. E vale ainda dizer: há barreiras no inconsciente que servem para proteger o sujeito do que lhes pode fazer mal, assim como estão ali mãos, pernas e roupas para proteger o corpo concreto. Por isso, violar esses limites pode ser absolutamente devastador.

Justificar não basta e aprendizado não se faz do dia para a noite. Já dizia Piaget que as coisas precisam ser assimiladas e acomodadas após certo tempo. Em psicanálise, considera-se a existência de um processo de elaboração, uma construção de algo para operar uma mudança.

É isso.

Obrigado pela leitura e até a próxima.

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