Depressão

A depressão se transformou em algo muito falado hoje em dia, entretanto, seu significado só está começando a ser difundido por aí. Como outras doenças mentais, não é um assunto simples.

Compreender e tratar a depressão leva algum tempo. Como o assunto é complexo, para muitas pessoas é melhor encerrar o assunto com alguma fala do tipo:

“antes não tinha dessas coisas”

“isso aí é frescura”

“isso é falta de ocupar a cabeça”

Há tantos exemplos que chega a ser desnecessário mencionar mais, não é? Mas, vamos por partes.

A via pela qual muitas pessoas ficam conhecendo a depressão é a psiquiátrica. Como falar de doenças costuma remeter aos médicos, convém citar o CID 10, antes de nos aprofundarmos no assunto da maneira que ele merece:

F32 Episódios depressivos
Nos episódios típicos de cada um dos três graus de depressão: leve, moderado ou grave, o paciente apresenta um rebaixamento do humor, redução da energia e diminuição da atividade. Existe alteração da capacidade de experimentar o prazer, perda de interesse, diminuição da capacidade de concentração, associadas em geral à fadiga importante, mesmo após um esforço mínimo. Observam-se em geral problemas do sono e diminuição do apetite. Existe quase sempre uma diminuição da auto-estima e da autoconfiança e freqüentemente idéias de culpabilidade e ou de indignidade, mesmo nas formas leves. O humor depressivo varia pouco de dia para dia ou segundo as circunstâncias e pode se acompanhar de sintomas ditos “somáticos”, por exemplo perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, várias horas antes da hora habitual de despertar, agravamento matinal da depressão, lentidão psicomotora importante, agitação, perda de apetite, perda de peso e perda da libido. O número e a gravidade dos sintomas permitem determinar três graus de um episódio depressivo: leve, moderado e grave.
Inclui:
episódios isolados de (um) (uma):
– depressão;
– psicogênica;
– reativa;
– reação depressiva.

Exclui:
quando associados com transtornos de conduta em F91.- (F92.0)
transtornos (de):
– adaptação (F43.2)
– depressivo recorrente (F33.-)

F32.0 Episódio depressivo leve
Geralmente estão presentes ao menos dois ou três dos sintomas citados anteriormente. O paciente usualmente sofre com a presença destes sintomas mas provavelmente será capaz de desempenhar a maior parte das atividades.

F32.1 Episódio depressivo moderado
Geralmente estão presentes quatro ou mais dos sintomas citados anteriormente e o paciente aparentemente tem muita dificuldade para continuar a desempenhar as atividades de rotina.

F32.2 Episódio depressivo grave sem sintomas psicóticos
Episódio depressivo onde vários dos sintomas são marcantes e angustiantes, tipicamente a perda da auto-estima e idéias de desvalia ou culpa. As idéias e os atos suicidas são comuns e observa-se em geral uma série de sintomas “somáticos”.
Depressão:
– agitada 
– maior
– vital

Fonte: Data SUS <http://www.datasus.gov.br/cid10/V2008/WebHelp/f30_f39.htm> Acesso em 24/11/2019 

Pois bem. Há muitos sinais e sintomas para definir o que é uma depressão dentro do CID10, não é? Mas ainda assim, essa compilação de códigos não é de longe o suficiente.

Por exemplo, existe o luto. Ele pode se parecer com a depressão, mas tem algumas diferenças que depois explico um pouco.

O luto é uma espécie de entristecimento causado por alguma perda, podendo ser marcado por desinteresse, angústia, pensamento recorrente no que foi perdido, além de lamentações nesse mesmo sentido. Não está necessariamente ligado a uma perda física, mas se aplica a outras, como a de perder um objeto ou bem querido, término de relacionamento ou quebras de vínculos (como mudança de escola, emprego ou profissão).

Lidar com uma perda implica em um gasto de energia para elaborar, entender, absorver e passar a lidar com a realidade de outra forma, se direcionando para outra coisa. Então, não será do dia para a noite que as pessoas deixarão de ficar enlutadas.

A elaboração do luto pode levar uns dois anos. Entretanto, como noutros casos em saúde mental, a intensidade dos sintomas pode requerer um suporte profissional para observar e escutar melhor o que está se passando, não sendo necessário esperar sozinho que tudo passe por si só. Aliás, o luto só é elaborado quando há um espaço para isso, o que pode acontecer falando à respeito, por exemplo.

Agora voltemos à depressão propriamente dita.

Na psicanálise, Freud a definiu como melancolia para diferenciá-la do luto. Isso aconteceu pois ao ouvir os pacientes, percebeu-se que ainda que alguns sinais e sintomas sejam parecidos, a forma como surgem e como se desenrolam são diferentes estruturalmente.

No caso do luto, a perda é de algo de fora. No caso da depressão (ou melancolia), é como se a pessoa tivesse lamentando a perda de um pedaço dela própria, como se sua personalidade estivesse mutilada e sofrendo por isso; isso tem uma implicação bem importante na auto-estima.

A coisa parece que está se complicando, não?

Sim, é um bocado complexa. A prática clínica mostra que a depressão pode estar associada a questões de formação de personalidade, o que fica bastante complicado de explicar aqui, o que me faria fugir da proposta da página.

Em relação ao diagnóstico e ao tratamento da depressão, eles podem demorar, já que implicam no tocar em lembranças doloridas. Isso requer cuidados, pois o sofrimento do paciente pode agravar os sintomas, mas precisa estar dentro do suportável para ele. Ou seja, não se pode escavar as memórias e sentimentos de alguém de qualquer jeito, pois isso pode acabar fazendo bastante mal.

Em relação a associação medicamentosa, é mais frequente as pessoas irem ao psiquiatra, receberem medicação e perceberem que só com comprimidos elas não voltam a ser como eram. Nessa fase alguns abandonam tratamento ou buscam outro psiquiatra. Entretanto, o ideal é a pessoa ir atrás de psicoterapia ou de psicanálise mantendo o tratamento prévio, tendo em vista que é importantíssimo ser ouvido o que está relacionado ao que trouxe e ao que se liga essa depressão.

Como disse, o CID10 fala dos sinais e sintomas da depressão mas, deixa muita coisa importante de fora que precisa ser avaliada e tratada pelos profissionais de saúde mental.

Você pode chegar ao consultório com um diagnóstico CID10, dizendo qual tipo de depressão que tem, com lista de remédios e carta de encaminhamento nas mãos. Só que essas coisas não falam sobre a sua história de vida e não vão servir por si só, para explicar como é que você adoeceu. O adoecimento é como um ponto que está ligado a outros pontos, mas que também vai formar outros pontos na medida em que ocorrerem recaídas e os altos e baixos da vida.

Difícil, não é?

É difícil sim. E por isso mesmo requer tanto do paciente quanto de seu terapeuta ou analista, empenho e comprometimento. O trabalho no consultório é feito de descobertas, redescobertas, lembranças, relembranças e escritos e reescritos. O ritmo deve ser adequado de caso para caso, pois como disse, é natural que cada pessoa tenha o seu limite para suportar sofrimento na medida em que tenta sair de onde está. Mas o tratamento é importante e pode sim conduzir à cura, o que naturalmente deverá implicar numa disposição do paciente em repensar coisas em sua vida.

E quanto às recaídas?

As recaídas podem se dar, por exemplo, na medida em que o deprimido consegue chamar atenção para a sua condição. Com isso, ele muda o ambiente ao redor, muitas vezes apenas temporariamente. Na medida em que melhora, seus arredores voltam ao que era antes e aí há o risco tanto da recaída, como dela não ter o mesmo efeito nos outros. À partir daí, as formas de tentar “chamar atenção para o sofrimento”, podem piorar.

Querer chamar a atenção não envolve um “querer consciente” na maioria dos casos. Essa é uma razão pela qual tanto pode fazer se após uma crise a pessoa ouve xingamentos ou recebe abraços. Se for questão de receber algo, isso vai satisfazê-la em relação ao inconsciente dela.

Não adianta muita coisa ficar se perguntando o que essa pessoa que está sofrendo quer e tentar oferecer isso. É preciso que ela tenha como dizer o que quer e para alguém que possa ouvi-la de uma forma mais apropriada.

Outra forma de recaída no tratamento da depressão é quando a pessoa tenta fazer algo diferente e isso não dá certo. Ou, quando ela se vê de cara com um acontecimento sofrível (afinal, no meio do tratamento podem acontecer imprevistos ou outros eventos traumáticos, como acidentes e lutos). Por isso é importante tanto o tratamento quanto sua continuidade: para amortecer e para ajudar a lidar com esses outros momentos delicados sem deixar as questões principais de lado.

Associações da depressão com outras doenças

A depressão pode ser uma doença secundária a outras de saúde mental, como em alguns obsessivos, portadores de histeria e em ansiedades má tratadas. Seja como for, a depressão sempre merece uma escuta e um tratamento cuidadosos. O tempo para a cura vai variar muito de caso para caso, não necessariamente requerendo o tratamento psiquiátrico, muito embora a maioria costume vir por esta via.

Mas como disse, a depressão pode ser uma doença secundária. Assim, muito embora ela possa ser curada, isso não quer dizer que o que a trouxe foi. Portanto, o tratamento da depressão pode não ser o fim de um tratamento e, caso essa questão não seja considerada com a devida atenção, pode ser um fator que implique em recaídas ainda mais sérias no futuro.

E quanto ao suicídio, as tentativas de suicídio e o auto-flagelo?

Elas estão associadas a quadros mais graves de depressão, mas não é regra geral que elas sejam formas de tentar chamar a atenção. Aliás, é uma observação um bocado superficial que se popularizou por aí.

Suicídio, tentativas de suicídio e auto-flagelo podem estar associados a:

  • tentativa de lidar com algo insuportável e conflitante: vamos dizer que em alguns casos a pessoa faz mal a si para causar culpa no outro, mas também pode fazer a mesma coisa para evitar causar mal ao outro, seja direta ou indiretamente;
  • se sentir insignificante e tratar a si próprio também com insignificância;
  • punir a si próprio por algum desejo proibitivo, ou por algum fracasso ou mesmo, sucesso.

Seja qual for a razão que fez a pessoa ficar deprimida, para sair da doença será preciso mudar alguma coisa na própria vida, nem que seja começando sozinha ao estender a mão ao telefone para buscar alguém para ouvi-la profissionalmente.

Você suspeita ou tem depressão? Faz tratamento? Está na dúvida sobre o que fazer? Entre em contato, vamos conversar sobre isso!

Conhece alguém que tenha? Faça uma indicação! Muitas queixas em saúde mental são direcionadas através de indicações! Faça a sua, elas podem demorar a fazer efeito, mas sempre são importantes!!

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